Síndrome do pânico


Uma das questões que podemos nos fazer quando estamos angustiados ou quando ouvimos falar sobre o pânico, é: qual a sua origem? Por que estou me sentindo deste jeito? O que há de errado comigo? Tenho tudo o que preciso para ser feliz, no entanto... Por que a “síndrome do pânico” pode ser considerada uma psicopatologia dos nossos tempos atuais?

A denominação de "síndrome do pânico" ou "transtorno do pânico" vem da psiquiatria e consta no Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM), por isso essa classificação seria baseada em perspectivas psicopatológicas, refere-se ao estudo das doenças mentais. 

A psicanálise se diferencia da psiquiatria na abordagem desse sofrimento, pois leva em consideração o inconsciente de cada sujeito, tendo então uma visão menos biológica do que a psiquiatria, que acaba reduzindo muitas vezes os sofrimentos a disfunções de neurotransmissores que controlariam nossas emoções, não implicando o sujeito em seu sofrimento. 

Muitos podem ser os benefícios dos medicamentos no tratamento de distúrbios psicológicos na medida em que podem aliviar os sintomas relacionados a eles, por exemplo no caso das pessoas que estão sofrendo ao ponto de não conseguirem sair de casa, ou realizar tarefas da rotina diária, o que pode ser desesperador para o paciente e seus familiares. Porém é fundamental que o paciente não acredite que apenas o remédio irá dar conta de acabar com seu sofrimento, depositando nele a responsabilidade pela estabilização de suas angústias; é preciso que a pessoa se coloque a questão do que é que pode estar acontecendo consigo mesma. 

O pânico pode ser definido como um afeto de extrema angústia, que na maioria das vezes é despertado pelo confronto do sujeito com seu desamparo. Para a psicanálise, somos todos seres desamparados, por isso não haveria garantias absolutas de nada em nossa vida. Coisas boas podem acontecer a qualquer momento, como coisas ruins também. Todos nós de alguma forma sabemos que pelo fato de estarmos vivos, podemos morrer a qualquer momento, mas nem por isso deixamos de continuar a viver e enfrentar as tarefas do cotidiano, assumindo os riscos inerentes a esse processo existencial que é o viver humano. Para algumas pessoas entretanto, em algum momento de sua vida esse ideal protetor onipotente pode perder seus alicerces, esmorecer, deixando a pessoa numa condição de desamparo que lhe invade e que provoca crises de angústia, fazendo com que esses riscos de todo vivente tornem-se difíceis de ser enfrentados; o desamparo se torna insuperável e muitas vezes insuportável, causando pânico e angústia e sugerindo a necessidade da busca por ajuda psicológica. 

Freud baseou sua descoberta sobre o pânico no desamparo da própria condição do ser humano, que nasce indefeso, imaturo, dependendo biologicamente e emocionalmente de um outro ser humano para sobreviver, de um outro que o acalente, o alimente e o proteja dos perigos externos e de seu próprio desamparo psíquico. Por esses motivos somos dependentes do amor e do cuidado do outro. Situações de perigo são vividas pela criança como desprazer, daí a vivermos as situações de desamparo na vida adulta a partir desses traços que ficaram em nosso inconsciente e que nos provocaram em algum momento sensações de medo ou horror. Sendo essas situações arcaicas reais ou imaginárias, o desamparo acaba sendo esse modelo de situação primitiva traumática que gera angústia. 

Podemos dizer que existe em nossa sociedade e época atuais uma certa tendência à promoção desses distúrbios, já que nossa cultura atual exalta a exibição de si mesmo, a exibição da estética e do eu e onde há a ênfase ao exterior e não ao interior. Podemos dizer que criou-se um vazio existencial produzido pela destruição da narrativa, a historicidade humana não é mais valorizada e existe uma tendência a valorizar o sucesso, o êxito do imediato e onde o brilho e o espetáculo estão sempre em detrimento ao que é interior, ao que é singular de cada um, ao que faz parte da alteridade e onde as diferenças poderiam ser bem vindas e bem vistas. Existe uma tendência de reduzir o homem à dimensão de uma imagem. Nesse sentido o fracasso em atender à todas essas exigências sociais será vivido por alguns como fracasso pessoal em atingir esses valores e ideais e o sentimento de desamparo poderá então ganhar espaço. 

Não apenas esse tipo de situação pode acarretar a síndrome do pânico, existem outras situações individuais e particulares que podem desencadear esse sentimento, sendo que cada indivíduo deve ser escutado em sua singularidade, e o psicanalista ou psicólogo poderá ajudá-lo a refazer e recontar sua história de vida, buscando sentido onde aparentemente não há, criando um espaço para o paciente subjetivar sua condição de desamparo, para falar sobre suas expectativas ou esperanças num mundo de incertezas e faltas de garantia e podendo lidar de forma mais livre e mais leve com todas essas faltas e incertezas.