Função Fálica, Linguagem e Psicose

Por: Patrícia Spessi

“A experiência psicanalítica descobriu no homem o imperativo do verbo e a lei que o formou à sua imagem. Ela maneja a função poética da linguagem para dar ao desejo dele sua mediação simbólica. Que ela os faça compreender, enfim, que é no dom da fala que reside toda a realidade de seus efeitos; pois foi através desse dom que toda realidade chegou ao homem, e é por seu ato contínuo que ele a mantém.” Lacan 1998 

Pretendo articular aqui a noção do termo “função fálica” à questões relativas à apropriação da linguagem por um sujeito, e, em especial um sujeito estruturado na psicose. 

Falar de “função” sugere pensarmos em um “funcionamento”; tratando-se aqui da função fálica, ou seja, o falo enquanto significante responsável pelo campo das significações do sujeito. Podemos pensar as funções como fálicas, pois são ordenadas por leis que nos antecedem e nos escapam. É na medida em que a ‘função funciona’, que o funcionamento terá, com ela, relação. Podemos assinalar o falo como significante do desejo e a entrada do terceiro em sua dimensão de falta simbólica, sua dimensão significante que fará com que funcionem a linguagem e a fala para um sujeito. 

Entre a mãe e o filho, é a função fálica que permite estabelecer um lugar simbólico para este. O falo, significante do desejo, surge como o objeto que falta, ou melhor, como uma articulação significante da falta de objeto como tal. 

Para todo e qualquer sujeito a linguagem adquire uma importância fundamental, pois é a estrutura da linguagem que a experiência psicanalítica descobre no inconsciente. Lacan dirá que o sujeito pode parecer servo da linguagem, pois seu lugar já está inscrito em seu nascimento nem que seja sob a forma de seu nome próprio. A linguagem funcionará para ele na medida em que a dimensão simbólica funcione ou não; o funcionamento da cadeia significante implicando aí corte, angústia, sulco no real. Este intervalo, este furo, isto que mantém a distância entre a função e o funcionamento, entre as leis simbólicas e a ordenação da cadeia significante, opera no real esse intervalo e sabemos que é de uma inscrição significante que aí se trata: 

“Pois, certamente, os sulcos que o significante cava no mundo real vão buscar, para alargá-las, as hiâncias que ele lhe oferece como ente, a ponto de poder persistir uma ambigüidade quanto a apreender se o significante não segue ali a lei do significado. Mas, o mesmo não acontece no nível do questionamento, não do lugar do sujeito no mundo, porém de sua existência como sujeito, questionamento este que, a partir dele, vai estender-se à sua relação intramundana com os objetos e à existência do mundo, na medida em que ela também pode ser questionada para-além de sua ordem”. Lacan, 1998 

Em seu seminário sobre As Formações do Inconsciente, Lacan dedica um capítulo à questão da foraclusão do nome-do-pai, principal mecanismo das psicoses. Ele diz que há na mensagem em que a criança decifra o comportamento da mãe, dois elementos e que eles não se definem um em relação ao outro, mas sim, que se trata de algo que concerne ao Outro, e que é aceita pelo sujeito de tal maneira que, se ele responder a respeito de uma coisa, sabe que será acuado acerca de outra; é como se responder a algum apelo da mãe provocasse o afastamento dela, e não lhe dar ouvidos, provocasse a sua perda. “Há duas mensagens simultâneas na mesma emissão, por assim dizer, de significação, o que cria no sujeito uma situação tal que ele se vê num impasse”. Lacan dirá que essa mensagem da mãe é constitutiva para o sujeito, que a posição do sujeito, em equilíbrio instável permite que possamos atribuir a essa “relação dupla”, efeitos tão grandes... mas isso só não basta. Lacan continua seu texto, dizendo que a questão que se coloca a propósito das psicoses é saber o que acontece com o processo da comunicação, quando, justamente, ele não chega a ser constitutivo para o sujeito e destaca a importância de o significante ser constitutivo para a significação. Ele coloca que as significações criam um impasse supostamente desencadeador do profundo desconcerto do sujeito quando ele é esquizofrênico e que deve haver alguma coisa no princípio desse déficit, que não é simplesmente a experiência impressa dos impasses das significações, porém a falta de alguma coisa que funda a própria significação, e que é o significante. 

Nas psicoses não se trata de algo que funde a fala como ato, mas de alguma coisa que se coloca como conferindo autoridade à lei. É a função do pai que permite dar nome às coisas. Lacan dirá que pode faltar alguma coisa numa cadeia dos significantes, e que “...é preciso compreender a importância da falta deste significante especial, o Nome-do-Pai, no que ele funda como tal o fato de existir a lei, ou seja, a articulação numa certa ordem do significante – complexo de Édipo, ou lei do Édipo, ou lei da proibição da mãe. Ele é o significante que significa que, no interior desse significante, o significante existe”. 

Uma paciente psicótica atendida em consultório relata um sonho que lhe parece intrigante e que se repete há varias semanas ininterruptamente e conclui: “Acredito que este sonho seja uma mensagem e quando eu descobrir o que ele quer dizer, ele deixará de acontecer.” Ela fala do sonho como algo do qual não se apropria, como uma mensagem vinda de fora, em momento algum se implicando ou tomando o sonho como uma mensagem do seu próprio inconsciente. Não há significantes colocados a disposição por esse sujeito para tentar apropriar-se deste sonho como seu, para dar-lhe um sentido. Lacan em seu texto A instância da letra, dirá que o significante, por sua natureza, sempre se antecipa ao sentido, desdobrando como que diante dele sua dimensão e que é na cadeia do significante que o sentido insiste, mas que nenhum dos elementos da cadeia consiste na significação de que ele é capaz nesse mesmo momento. Pensando o sonho como um fenômeno que participa do campo analítico e sendo ele uma das formas de manifestação do inconsciente, poderíamos supor que um sonho para um ‘neurótico’ supõe um sentido implícito a ser desvendado pelo sujeito de acordo com suas vivências e poderá provocar-lhe questões acerca de uma possível metáfora presente nele. Parece que isto não acontece na psicose. Não há uma dialética possível por parte do sujeito para podermos pensar que algo dele se faça reconhecer nesta manifestação do inconsciente, que possa fazer com que um sonho se transforme numa possível elaboração de suas próprias angústias ou questões, não há algo que se faça reconhecer, que tenha a liberdade de se fazer reconhecer: 

“Na loucura, seja qual for sua natureza, convém reconhecermos, de um lado, a liberdade negativa de uma fala que renunciou a se fazer reconhecer, ou seja, aquilo que chamamos obstáculo à transferência, e, de outro lado, a formação singular de um delírio que – fabulatório, fantástico ou cosmológico; interpretativo, reivindicatório ou idealista – objetiva o sujeito em uma linguagem sem dialética”. (Lacan escritos pg. 281) 

Para finalizar, cito novamente Lacan, que ao formular o esquema L, falando sobre o significante do nome-do-Pai, dirá que no destino e na história de um sujeito é preciso que haja este significante primordial, mas é também preciso que saibamos servir-nos dele. Podemos concluir com ele: 

“... por morto que seja, o sujeito, uma vez que há sujeito, está na partida às suas próprias custas. Do ponto não constituído em que se encontra, ele terá de participar dela – se não com seus trocados, pois talvez ainda não os tenha, pelo menos com sua pele, isto é, com suas imagens, sua estrutura imaginária e tudo o que se segue” Lacan 1999. 

Assim nos ensina a psicanálise e o processo analítico: é preciso participar da vida com seus trocados, entrar na partida às suas próprias custas, sendo nós psicóticos ou não. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

LACAN, Jacques. O Seminário: livro 3: As psicoses (1955-1956). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. 
______. O Seminário – livro 5: As formações do inconsciente (1957-1958). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. 
______. De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. In.: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. 
______. Função e Campo da fala e da linguagem em psicanálise: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. 
______. A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. 
MANFRONI, Ana Cristina. Função e Funcionamento: a função fálica e o funciona-mento institucional. Em: http://tempofreudiano.com.br/artigos/detalhe.asp?cod=24 Acesso em: 20/10/2012.